Segundo Engels e Marx, a história repete-se sempre, pelo menos duas vezes. A primeira como tragédia, a segunda como farsa. Ou então, mais prosaicamente, há coisas que não mudam nunca, seja o estado de permanente convulsão e os complexos de esquerda do PPD/PSD, seja o oportunismo cínico do PS. Devem ser eflorescências do materialismo dialéctico.
“Em Julho e Agosto [de 1974] (…)
os elementos da Comissão Política percebiam tudo o que ainda lhes faltava
fazer: “Necessidade de conquistar votos ao centro,; necessidade de afirmar
publicamente a ideia da social-democracia; necessidade de ocupar efectivamente
o lugar de centro-esquerda, que é o lugar próprio do PPD, impedindo assim o
arrastamento do PS em direcção ao PCP; necessidade de implantar e enraizar
solidamente o partido; necessidade de aperfeiçoar os contactos com os centro de
decisão política; necessidade de adaptar a estrutura à dinâmica do partido;
necessidade de antecipação política; necessidade de apontar claramente para
opções políticas concretas; necessidade de começar uma intensa campanha de
otenção de adesões ao partido; necessidade de criar impacto na opinião pública
por meio de uma campanha maciça através de órgãos políticos.”
(…) quase todas as pessoas que enchiam
o Pavilhão dos Desportos [em 23 de novembro de 1974] estavam desejosas de ouvir
propostas de esquerda mais radicais. Houve apelos “à construção de uma
sociedade socialista”, críticas aos “vícios do sistema capitalista”, pedidos de
“socialização dos meios de produção”, declarações de apoio a um sistema de
planificação da economia e e explicações sobre a inevitabilidade de uma
política de nacionalizações – no final, todas estas medidas passariam a fazer
parte, “por aclamação”, do programa do PPD.
(…) quem iria a um comício em
Évora, onde se previa que houvesse distúrbios, provocados pelo PCP, e Emídio
Guerreiro [à data com 76 anos, viria a morrer com 105] voluntariou-se. Mais:
ofereceu-se para realizar uma acção espectacular, que deixaria os adversários
paralisados. Iria de helicóptero e saltaria de para-quedas directamente na
praça onde se realizava o comício. [Não foi, que pena!]
Emídio Guerreiro [o mesmo] explicou
o que lhe ia na cabeça. Acreditava por exemplo que a social-democracia era
apenas uma via para a sociedade sem classes e para a abolição da propriedade
privada dos meios de produção. E achava que os problemas da União Soviética se
deviam aos desvios de Estaline porque Lenine era um homem com muitas qualidades
(…) Mário Soares, o
primeiro-ministro socialista, nunca aceitaria uma partilha de poder e
continuaria a usar os sociais-democratas para aprovar algumas leis avulsas no
parlamento, tratando o PSD como se fosse um criado sempre disponível.
Não havia nada a esperar dos
socialistas. “O PS tolera-nos porque precisa de nós e enquanto de nós
necessitar.”
Todas as transcrições são do
livro Sá Carneiro, de Miguel Pinheiro, com excepção das precisões que constam entre
parênteses rectos
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